...Sim tenho ciúmes, tenho ciúmes demasiadamente porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me abraça. E eu acordo triste, e brigo de verdade e passo o dia grave e dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso...que é só o passado. É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto comprado em sebo la de Salvador, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os resquícios da escrita carinhosa de outras mãos. Alguém corrompeu o trecho que eu mais gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com borracha e que era tão secretamente meu. Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei da interpretação alheia. E achei aquilo tudo de uma crueldade sem fim. Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele: afeto pelo que era angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade. Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo. Perdoa o meu senso de autoimportância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo bobo, perdoa meu ciúmes já que te amo e quero tão bem a ponto de não te confiar a outras .Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados fazendo um novo presente parecer melhor do que lhe é. Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e no coração...Tenho ciúmes sim mas tudo isso é derivado do que tenho de melhor que é meu amor...(Ass: Ninguém)
